

Tu que reinventastes a roda da poesia
Por onde andas? Ou de voo é feito o seu caminhar?
Em teu reino, nos tornastes encharcados de lirismo, naquela riscada adolescência
Cansado da prosa deste mundo, mergulhastes na espiral das palavras
Para desaparecer no desaponto do pesponto
Contados nós, buscamos teu rastro nos volumes, texturas e materiais
Ó ruas de Itabira que percorri, sem encontrar-te!
Salve, poeta, em tua eternidade me provisiono, provisório o porvir
Só teus versos suavizam o tremor da pena.
Afinal, o que é a morte para quem provou do Infinito?

O sapo olha no entorno, pisca e volta a dormir. Estou neste mundo aquático. Espero.
O sol da tarde em Alto Paraíso ilumina até mesmo minhas escuridões. Adormeço.
Agora, vejo que um ser humano me observa aqui na água. Fotografa até.
Não sei mais pensar. Sou líquido.

A poesia no museu é para interagir, pisar até.
É como um prato de arroz com feijão na hora da fome mesma
uma pedra no meio do caminho, um sorriso,
incêndio interior, sem chamas no prédio
A poesia no museu – da Língua Portuguesa, é puro encantamento
É beijo de princesa, água na fonte, amor eterno,
sorrisos em fluídos.

Pesquisar os eus inferiores e limpar os senões
Tudo que cheire a talvez, quem sabe, não sei, vou pensar mais
São aquelas hesitações que contaminam ou revelam desejos
É fel, ácido, que corre em nossas veias e nos paralisa, atiça
O que você quer de mim? Pergunto no quarto escuro
Só a sombra jus me conforta. É luz?

Sentado na praça, o futuro escritor Gabriel Garcia Marquez, muito jovem, carregando livros na cabeça, contou:
– Mal começávamos a vislumbrar o perfil de algumas cúpulas de igrejas e conventos na bruma do entardecer, quando saiu ao nosso encontro um vendaval de morcegos.
Suas asas zuniam como um tropel de trovões e deixavam à sua passagem uma pestilência de morte.
Surpreendido pelo pânico, soltei a maleta e me encolhi no chão com os braços na cabeça, até que uma mulher mais velha que caminhava ao meu lado gritou para mim:
– Reze A Magnífica. Ou seja: a oração secreta para esconjurar assaltos do demônio. Reze comigo. Mas com muita fé, por favor! – disse ela.
Eram as respostas de Deus.
Gabriel ou Gabo, feito anjo, repetiu os versos da oração, seguindo a velha concentrada e decidida
com uma devoção que nunca havia sentido ou voltou a sentir.
O tropel de morcegos desapareceu do céu antes que terminassem de rezar.
“Só restou então o imenso estrondo do mar nos rochedos e nos recifes”, arrematou.
O escritor e jornalista estava, naquela ocasião delicada, nas cercanias de Cartagena das Índias, Colômbia.
E escapuliu muito bem do “demo” (cruz credo). Artes de um grande escritor!

De tanta maldade, purifiquei
De tanto julgamento, ascendi
De tanto medo, superei
Das dores, fiz alegrias
Dos obstáculos – intestinos, pés, estômago, coração, pele, cabelos, palavras-faca ou palavras-canivetes, renasci
As crianças do mundo sorriem para a célula do Conselho Universal da Rainha
cinturão do planeta
A Rainha entregou seus poderes a quem descobriu o Verdadeiro Amor
Você duvida? Volte, então, a rezar:
“De tanta maldade, purifiquei. De tanto julgamento, ascendi…”.

Mesmo se os planetas desaparecerem, o espaço sideral registrará o nosso amor
Letras dançando, em gravidade zero, como a suavidade das crianças
Um beijinho molhado, um dedinho na boca que pensa destinos
Ou entrando na igreja em dia de casamento: flores de encantado caminho
Nas estantes de estrelas, estarão seus bilhetes e cartões de Natal e do Dia dos Pais
Serei sempre este pai que adora você, que foi adotado por você
E que em você existe, se justifica e tem registro de pertencimento
Ao seu lado, sou referendado pelos ancestrais e por nossos descendentes
É linha do tempo que percorre milênios em vastas linhagens
A constelação do amor atravessa oceanos
Nunca nasce nem morre, não tem território ou fronteira
É Deus dentro de nós. Um beijo, minha querida!

Esta palavra me foi soprada quando ainda dormia, em plena e suave segunda-feira
Coloca lá, no seu Dicionário: desprachego
É aquela ação inominável, indescritível, mas que você tem de fazer
Nuances da nossa ignorância
Entre um verbete e outro, há uma palavra-chave que vai abrir os portais do Coração.
Desprachego! E meu coração se abre para a imensidão
um amor para além fronteiras, para depois de todos os territórios
À venda, à vista ou a prazo: nuvens em seu passamento eterno
Ah… esse doce descompromisso.
